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para Soror Carmen na Capela do Morumbi

Os trabalhos de Ana Paula Oliveira têm marca da iniciativa e da práxis em sua superfície. A transparência do sabão, porém, tira qualquer solidez que tal iniciativa pudesse lhe conferir, fazendo com que misturemos os planos superiores com seu interior e mesmo a sua base. Esse segundo aspecto demonstra uma independência do material, trazendo uma casualidade que contradiz essa impressão inicial de matéria submetida à vontade.

Ao mesmo tempo em que é transparente, a peça parece suja, encardida. Ana Paula faz ver que o sabão, um objeto purificador, por seu uso, é o mais sujo de todos. Ele é gorduroso e destrói a gordura. Ele limpa e carrega a sujeira consigo, como o bode hebreu, carregado de pecados da comunidade., solto num mundo que parece ter ojeriza à sua conspurcação involuntária.

Apesar de pequenas, as esculturas têm a aparência terrível e miserável de um mendigo pregador. Transparentes, revelam com mais clareza a sujeira, como as pessoas numinosas, que têm, como maior característica, e a mais irritante, colocar em evidência os pecados alheios. Essa sujeira do sabão nasce da sua condição de escultura tirada de um molde, carregado consigo todas as impurezas do lugar de origem.

Ana Paula produz suas esculturas aplicando sabão na arquitetura. Não na arquitetura projetiva, no espaço que representaria o desenho arquitetônico, pelo contrário, nascem dos contratempos, das irrelevâncias do projeto.

A sua arquitetura é tátil e memorialística. Como a das crianças, que percorrem com a mão, as peles do lugar.

Rafael Campos Rocha, 2001

Veja o trabalho Soror Carmen