Cautela em deslize

No decorrer da produção de Ana Paula Oliveira, o interesse pela contenção e pelo extravasamento da matéria gordurosa parece ser uma constante de sua ação.
No projeto que apresenta no CCSP, a artista utiliza as estruturas de madeira das divisórias do espaço expositivo, preenchendo algumas de suas partes com graxa e gel translúcido.
A escolha pela matéria gordurosa sublinha a ideia de maleabilidade do espaço. Tratando-o como uma “geleca” que pode ser moldada a todo instante, ativa o espaço conforme as presenças que o habitam.
Ao utilizar as divisórias que delimitam o espaço expositivo, Ana Paula Oliveira discute questões escultóricas de modo abrangente e faz com que o entrosamento entre as matérias não se fecha em si mesmo.
O dialogo travado entre a matéria gordurosa e o anteparo planar – aquilo que a pressiona e a compartimenta – é estabelecido em um entendimento não facilitado, detendo-se no limite entre o proceder ativo e o deixar-se à passividade. A ação empenhada torna-se reação assentada, quando se desinteressa em mostrar o ímpeto de sobrepor as qualidades da matéria. Concebe, assim, a aceitação das estreitezas irrefutáveis partilhadas pela lambança inevitável.
Recusa o ideal de lisura e limpeza do mundo, deixando extravasar a matéria pegajosa e inconveniente. Pressionando-a, verifica o seu poder de adentrar os espaços sem restrições, como resposta rápida de sua consistência mole. A matéria gordurosa e derrapante desvia as ações previstas e a habilidade precisa. Tentando civilizá-la, sem exigir uma compostura que desvalide seus propósitos, a artista desvirtua o anteparo e desatina o transbordamento.
Não há cautela que não caia em deslize.

Tatiana Blass, 2002
Veja o trabalho Divisória